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Por que fazer música?

  • Foto do escritor: Mateus Cabot
    Mateus Cabot
  • 9 de mar.
  • 3 min de leitura

Ao longo dos últimos 20 anos, o que eu mais tive foi blog; vários. Recomecei inúmeras vezes e talvez nenhum tenha sido tão simbólico quanto esse. Muitos dos meus blogs foram protótipo do que eu queria ser, ou uma manifestação. Lembro quando eu não era nada além de um emo e lancei o meu primeiro .com, com o maior profissionalismo. Tinha um teaser no Youtube, imagine. Para o blog! Por algum tempo isso rendeu nas páginas do Orkut ou MySpace e eu quase fui alguém nos termos da subcultura emo 2000 do interior de São Paulo. Eu escrevia para me fazer ver, me fazer ouvir; os outros e eu mesmo. Ouvindo a mim, lendo a mim. Desde essa época, eu queria fazer música. Queria ser cantor, roqueiro, tocar para uma multidão como a Avril Lavigne. Eu só não sabia como e como a vida deu voltas, viu?


Algumas 'limitações' que eu hoje observo na terapia podem ter contribuído para o vaivém danado entre o sonho e a realização dele, ou talvez a vida só tenha o seu caminho mesmo e o seu tempo. O Tempo sempre foi uma questão pra mim e talvez seja para aqueles que têm muitos sonhos. Eu queria morar no Rio de Janeiro, queria conhecer o mundo, queria ir para o interior atrás do meu amor; eu queria passar na universidade, queria morar sozinho, eu queria ser professor. Professor universitário. Eu queria ser jornalista. Eu queria escrever um livro, queria ser poeta, queria andar de skate e queria ter uma banda. Eu queria uma guitarra rosa e fazer fotos analógicas. Eu continuo querendo tudo isso, tá? A vida é fazer escolhas e é difícil entender isso, né? Claro, as escolhas que a gente pode fazer. Nem todo mundo tem como poder fazer escolhas. Eu queria também ser uma bruxa, gravar documentários, ser diretor de cinema, ator, filósofo. Eu queria fazer drag e estar em Rupaul's Drag Race.


Tem como viver assim? Mas eu queria ter uma banda. E enquanto eu caminhava por todo esse mundão, eu cantarolava e cantarolei. Anotava e anotei tantas músicas que hoje já não sei mais quantas. Perdi as contas e também perdi o protocolo de um registro de uma pasta com um punhado delas na Biblioteca Nacional.


Hoje eu tenho 32 anos, moro no Rio de Janeiro, não fui para o interior em busca do meu amor, sou jornalista, uma bruxa, publiquei um livro de poesias, dirigi um documentário, fiz drag, não estive em Drag Race, tenho uma guitarra rosa, uma câmera analógica igualmente rosa, meu skate chegou pelo mercado livre há algumas semanas, e em 01.01.2026 lancei minha primeira música. Ainda não tenho uma banda mas até que fiz muito da vida, colocando assim em lista, em perspectiva, um breve aceno ao Mateus emo de Campinas, meu amigo distante.


Cantarolar me ajudou a caminhar. Claro que poderia ser tudo diferente e ainda melhor, mas entre as pressões da caminhada eu cantarolei. Entre os medos e a ansiedade, eu escrevi. Entre o sentimento de inabilidade, eu só segui. Cantarolando. Foi só 15 anos depois dessa história toda que eu pensei: agora eu vou fazer música, de qualquer jeito; o que eu não sei eu vou encontrar alguém que saiba e eu vou cantarolar e cantar. Foi a primeira vez que eu fiz não só pensei, com as perdas pelo caminho mesmo. Tem horas que o corpo da gente exige alguma coisa que a gente sempre quis e soube, mas o corpo que impera e faz. É do campo da ação. E o bom da ladainha, é que agora eu tinha coisa pra contar.


O que eu aprendi é que nunca caminhei sem cantar. Um passo sequer.


A caminhada foi longa e o Mateus que começa esse blog agora é o mesmo que aos 12 anos lançava seu primeiro .zip.net e lia O Boteco da Pitty. Que O Grimório seja um primo distante. A gente joga pra vida, agradece e cantarola.


Dia 04.04.2026 tem 3 De Copas com três músicas minhas. Desejem-me sorte e até breve.

 
 
 

1 comentário


marinarj85
10 de mar.

A única coisa que realmente importa na vida é deixa-la fluir mas guiando com suas rédeas na mão, de modo que se realize o que se sonha. Parabéns e boa sorte

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